'Responsável' por regenerar dedo amputado fala ao Globo Online e explica a técnica
A notícia de que o pedaço de um dedo amputado em um acidente de um americano foi regenerado após a aplicação de uma substância chamada Matriz Extra Celular impressionou a sociedade. Semana passada, pesquisadores da Universidade de Pittsburgh disseram que desenvolveram um pó especial que estimulou as células do dedo ao redor da parte decepada a crescer. O pesquisador Stephen Badylak, que desenvolveu o pó usando células da parte interna da bexiga de um porco, falou ao GLOBO ONLINE e explica o porquê da polêmica gerada após a divulgação da técnica . Ele contou que o procedimento já está sendo aplicado com sucesso em outras partes do corpo e disse que nos dedos a ação da substância está sendo estudada em soldados americanos que tiveram parte das mãos amputadas. ( Assista ao vídeo e veja como o dedo cresceu )
O GLOBO ONLINE: Como é o processo de criação da Matriz Extra Celular?
BADYLAK: A Matriz Extra Celular que utilizamos nesse estudo é derivada de diversos tecidos. Você pode obter ECM (sigla em inglês para a matriz) de qualquer tecido. O mais fácil de obter e usar nos nossos estudos são os tecidos derivados do intestino delgado, fígado ou bexiga do porco. Qualquer um desses tecidos podem ser utilizados. No caso do dedo, utilizamos tecido da bexiga de um porco.
A divulgação do caso de Lee Spievak gerou bastante discussão esta semana entre médicos. Alguns deles se dizem céticos em relação ao avanço. Um deles afirma que a substância usada não poderia obter um resultado tão complexo, e outro acredita que a recuperação do dedo pode ter sido um processo natural. Como o senhor explica o estudo?
Os estudos estão acontecendo neste momento em soldados que voltam do combate no Iraque e Afeganistão com dedos amputados. A pesquisa foi financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA
BADYLAK: É certamente uma verdade que dedos amputados, especialmente na área em que foi amputado, podem crescer espontaneamente em alguns casos. Não é muito incomum acontecer em crianças com menos de 2 anos. Quando a pessoa fica mais velha, no entanto, casos de regeneração ficam menos comuns. E em casos de pacientes com 60 anos, por exemplo, como foi o caso deste paciente, é muito menos comum, mas não impossível. Isso também dependeria da quantidade de tecido perdido. Então, a grande pergunta após esses resultados é: a presença desse pó ECM fez alguma diferença nesse paciente? Esse paciente regeneraria sem a presença do pó? E é claro que a única forma de saber isso é fazendo um estudo clínico controlado que já está acontecendo neste momento.
Como são feitos esses estudos?
BADYLAK: Os estudos estão acontecendo neste momento em soldados que voltam do combate no Iraque e Afeganistão com dedos amputados. A pesquisa foi financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA. Depois que esses estudos forem concluídos, acho que teremos uma idéia muito melhor da eficácia. Nós nunca falamos que esse pó faria o dedo crescer. Infelizmente, o paciente que foi tratado ficou tão empolgado que foi à imprensa mostrar. Nós estamos muito otimistas, mas temos muito cuidado ao falar da substância. Nós não estamos falando aqui que aplicar, simplesmente, um pó em um dedo vai fazê-lo regenerar.
O senhor poderia afirmar qual é a eficácia da aplicação do pó?
Nós nunca falamos que esse pó faria o dedo crescer. Infelizmente, o paciente que foi tratado ficou tão empolgado que foi à imprensa mostrar
BADYLAK: Para o dedo é difícil avaliar a eficácia em números. Mas, se você pega, por exemplo, o mesmo material em forma diferente e usa para reconstruir uma bexiga ou uretra temos um índice de 90% de certeza da regeneração. Se você usa o mesmo material para o tratamento de problemas nos tendões, como o de alquiles e o dos ombros, temos um ótimo índice de regeneração - de 75% a 80%. Quando se trata de tecidos mais complexos, como um dedo, que tem nervos, veias, músculos e tendões, numa disposição complexa, provavelmente o índice de regeneração não será tão alto. Mas o que achamos é que resolve um pedaço do quebra-cabeça do processo. Acho que temos que ter cuidado ao falar disso. Algo bom aconteceu que não aconteceria se nada fosse feito.
Esta técnica - utilizada em outros tecidos como o tendão - já é aplicada em hospitais?
BADYLAK: Mais de um milhão de pacientes já foram tratados nos últimos 8 anos. Esses tratamentos não são muito divulgados, pois temos muito cuidado com a forma que introduzimos o tratamento no cenário médico. Cada aplicação desses materiais exige aprovação de agências reguladoras, como o FDA, e exige experiência do profissional que vai realizar a cirurgia. Então, tem sido um processo lento e metódico. Já há no mercado produtos derivados do ECM que são utilizados em procedimentos cirúrgicos.
Qual é a diferença no processo quando o médico tenta uma cicatrização e quando a intenção é regenerar?
Certamente é possível que pacientes reajam de forma diferente. Mas em geral as pessoas reagem de forma similar
BADYLAK: Se tivéssemos todas as respostas para isso teríamos montado o quebra-cabeça. Quando um ser humano ainda é um feto, até a 18ª semana, temos a habilidade de regenerar grandes quantidades de tecidos (pedaços de coração, fígado e etc). E nesse momento de desenvolvimento a habilidade de desenvolver uma reação à cicatrização vinda de uma inflamação aumenta. Ao mesmo tempo, no entanto, a habilidade de regenerar diminui. Há provavelmente sinais que indicam que é necessário fazer uma coisa ou outra. Como o homem é muito bom na cicatrização, provavelmente reprimimos o sinal de regeneração. Os sinais continuam ali, mas a pergunta é se podemos reativá-los e ao mesmo tempo. Acreditamos que isso é o diferente na ECM.
Todos os pacientes podem reagir da mesma forma ou o caso deste americano é isolado?
BADYLAK: Certamente é possível que pacientes reajam de forma diferente. Mas em geral as pessoas reagem de forma similar porque o sinal que é mandado do ECM tem ações previsíveis.
Sua equipe vai realizar este procedimento em um paciente de câncer de esôfago?
BADYLAK: Essa é uma aplicação que realmente necessita de um tratamento de regeneração. O tratamento atual consiste em retirar totalmente o esôfago e fazer uma ligação com o aparelho digestivo. A qualidade de vida fica muito comprometida. Então, acreditamos que essa é uma área que realmente precisa de um novo tratamento. Essa cirurgia na Argentina já está praticamente preparada. Estamos esperando somente os aparelhos serem fabricados para que o cirurgião tenha condições de realizá-la.
O GLOBO ONLINE: Como é o processo de criação da Matriz Extra Celular?
BADYLAK: A Matriz Extra Celular que utilizamos nesse estudo é derivada de diversos tecidos. Você pode obter ECM (sigla em inglês para a matriz) de qualquer tecido. O mais fácil de obter e usar nos nossos estudos são os tecidos derivados do intestino delgado, fígado ou bexiga do porco. Qualquer um desses tecidos podem ser utilizados. No caso do dedo, utilizamos tecido da bexiga de um porco.
A divulgação do caso de Lee Spievak gerou bastante discussão esta semana entre médicos. Alguns deles se dizem céticos em relação ao avanço. Um deles afirma que a substância usada não poderia obter um resultado tão complexo, e outro acredita que a recuperação do dedo pode ter sido um processo natural. Como o senhor explica o estudo?
Os estudos estão acontecendo neste momento em soldados que voltam do combate no Iraque e Afeganistão com dedos amputados. A pesquisa foi financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA
BADYLAK: É certamente uma verdade que dedos amputados, especialmente na área em que foi amputado, podem crescer espontaneamente em alguns casos. Não é muito incomum acontecer em crianças com menos de 2 anos. Quando a pessoa fica mais velha, no entanto, casos de regeneração ficam menos comuns. E em casos de pacientes com 60 anos, por exemplo, como foi o caso deste paciente, é muito menos comum, mas não impossível. Isso também dependeria da quantidade de tecido perdido. Então, a grande pergunta após esses resultados é: a presença desse pó ECM fez alguma diferença nesse paciente? Esse paciente regeneraria sem a presença do pó? E é claro que a única forma de saber isso é fazendo um estudo clínico controlado que já está acontecendo neste momento.
Como são feitos esses estudos?
BADYLAK: Os estudos estão acontecendo neste momento em soldados que voltam do combate no Iraque e Afeganistão com dedos amputados. A pesquisa foi financiada pelo Departamento de Defesa dos EUA. Depois que esses estudos forem concluídos, acho que teremos uma idéia muito melhor da eficácia. Nós nunca falamos que esse pó faria o dedo crescer. Infelizmente, o paciente que foi tratado ficou tão empolgado que foi à imprensa mostrar. Nós estamos muito otimistas, mas temos muito cuidado ao falar da substância. Nós não estamos falando aqui que aplicar, simplesmente, um pó em um dedo vai fazê-lo regenerar.
O senhor poderia afirmar qual é a eficácia da aplicação do pó?
Nós nunca falamos que esse pó faria o dedo crescer. Infelizmente, o paciente que foi tratado ficou tão empolgado que foi à imprensa mostrar
BADYLAK: Para o dedo é difícil avaliar a eficácia em números. Mas, se você pega, por exemplo, o mesmo material em forma diferente e usa para reconstruir uma bexiga ou uretra temos um índice de 90% de certeza da regeneração. Se você usa o mesmo material para o tratamento de problemas nos tendões, como o de alquiles e o dos ombros, temos um ótimo índice de regeneração - de 75% a 80%. Quando se trata de tecidos mais complexos, como um dedo, que tem nervos, veias, músculos e tendões, numa disposição complexa, provavelmente o índice de regeneração não será tão alto. Mas o que achamos é que resolve um pedaço do quebra-cabeça do processo. Acho que temos que ter cuidado ao falar disso. Algo bom aconteceu que não aconteceria se nada fosse feito.
Esta técnica - utilizada em outros tecidos como o tendão - já é aplicada em hospitais?
BADYLAK: Mais de um milhão de pacientes já foram tratados nos últimos 8 anos. Esses tratamentos não são muito divulgados, pois temos muito cuidado com a forma que introduzimos o tratamento no cenário médico. Cada aplicação desses materiais exige aprovação de agências reguladoras, como o FDA, e exige experiência do profissional que vai realizar a cirurgia. Então, tem sido um processo lento e metódico. Já há no mercado produtos derivados do ECM que são utilizados em procedimentos cirúrgicos.
Qual é a diferença no processo quando o médico tenta uma cicatrização e quando a intenção é regenerar?
Certamente é possível que pacientes reajam de forma diferente. Mas em geral as pessoas reagem de forma similar
BADYLAK: Se tivéssemos todas as respostas para isso teríamos montado o quebra-cabeça. Quando um ser humano ainda é um feto, até a 18ª semana, temos a habilidade de regenerar grandes quantidades de tecidos (pedaços de coração, fígado e etc). E nesse momento de desenvolvimento a habilidade de desenvolver uma reação à cicatrização vinda de uma inflamação aumenta. Ao mesmo tempo, no entanto, a habilidade de regenerar diminui. Há provavelmente sinais que indicam que é necessário fazer uma coisa ou outra. Como o homem é muito bom na cicatrização, provavelmente reprimimos o sinal de regeneração. Os sinais continuam ali, mas a pergunta é se podemos reativá-los e ao mesmo tempo. Acreditamos que isso é o diferente na ECM.
Todos os pacientes podem reagir da mesma forma ou o caso deste americano é isolado?
BADYLAK: Certamente é possível que pacientes reajam de forma diferente. Mas em geral as pessoas reagem de forma similar porque o sinal que é mandado do ECM tem ações previsíveis.
Sua equipe vai realizar este procedimento em um paciente de câncer de esôfago?
BADYLAK: Essa é uma aplicação que realmente necessita de um tratamento de regeneração. O tratamento atual consiste em retirar totalmente o esôfago e fazer uma ligação com o aparelho digestivo. A qualidade de vida fica muito comprometida. Então, acreditamos que essa é uma área que realmente precisa de um novo tratamento. Essa cirurgia na Argentina já está praticamente preparada. Estamos esperando somente os aparelhos serem fabricados para que o cirurgião tenha condições de realizá-la.
Fonte:
Publicada em 06/05/2008 às 15h56m

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